
Surge mais um cliente de “casa”, melhor, cinco amigas psicólogas da professora de mídia da universidade. Pois bem, com as melhores intenções a professora nos indicou para fazer uma marca para as profissionais. Em início de carreira elas queriam, como nós, ingressar no mercado de trabalho com força total. Depois de um job regado à bosta de vaca esta seria a injeção de ânimo que precisávamos. Alessandra ligou para as psicólogas, uma delas atendeu (lógico, não podia ser as cinco) e foi logo dizendo o que queriam. Alessandra, já com a sua vasta experiência de uma primeira quase conta* interrompeu gentilmente e pediu para marcar uma reunião. Seu pedido foi atendido e o grande dia chegou. Fomos para universidade novamente com as roupas elegantes para dar o toque executivo ao momento, traçamos algumas estratégias (que não cumprimos) baseadas nas conversas preliminares com as clientes potenciais e só esperamos largar, almoçar e seguir para o grande momento. A reunião era às 15h.
A primeira complicação foi no restaurante. O estacionamento tinha uma inclinação de quase 900 (exagerado esse menino). Números à parte, o fato é que o freio-de-mão não sustentava de jeito nenhum o carro naquela posição. Resultado: Daniel e Alessandra tiveram que sair do carro e eu ficar lá dentro plantado com o pé no freio. Procurar outro restaurante não dava, já era 13h30min. Depois de algumas reflexões Daniel resolveu procurar uma pedra para colocar atrás do pneu traseiro do veículo. Deu certo, o carro, com jeitinho, ficou parado. Fomos almoçar, mas qualquer zoada mais forte que escutava pensava que era meu carro descendo a calçada entrando numa loja do outro lado da rua depois de atropelar algumas pessoas na trajetória. Mas deu tudo certo e almoçamos em paz (ou quase).
Saímos do restaurante e na hora prevista chegamos no prédio onde funcionava o consultório. Ao chegar na sala descobrimos que elas não tinham chegado, resolvemos então esperar no hall do prédio. Depois de meia hora de espera chega uma delas, dá boa tarde, pergunta se somos os publicitários, confirmamos, e ela pede gentilmente para que a gente entre.
Logo percebemos que eles tinham um estilo moderno e arrojado. Parecia que as psicólogas tinham inscrito a sala no quadro “Lar Doce Lar” de Luciano Huck. Este seria um bom indicativo para a criação, considerando a tendência das clientes para inovações. Depois de algumas conversas e anotações, chegaram outras três. “Despejaram” suas vontades sobre a marca que queriam e a reunião acabou sem a presença da quinta psicóloga. Levamos o briefing e já partirmos para a criação na casa de Daniel. Após vários brainstorms finalmente saiu a primeira marca: um revolucionário número cinco com uma elipse (tradicionalíssima forma geométrica que salva os diretores de arte) e o nome “Cinco Psicologia” (detalhe: tivemos que pensar até em um nome para elas). Feita a marca, partimos para uma segunda criação, desta vez mais tradicional, com o nome “Consultório de Psicologia” e um layout que nem lembro mais a forma.
Satisfeitos com a criação, chegou o grande dia de apresentar o job. Nos vestimos novamente com roupas elegantes para dar o toque executivo ao momento e chegamos ao local... Sem almoçar mesmo, para não correr o risco de ter que pegar um ônibus e chegar com atraso no local. No íntimo eu estava com a esperança de encontrar a quinta psicóloga (seria tão bonito as cinco sorrindo e dizendo: “como está lindo o layout, combina com as cinco”). Mas só estavam os quatro novamente. Apresentamos o job, elas gostaram e disseram que iam conversar com a quinta psicóloga. Confesso que realmente fiquei intrigado com esta figura oculta. Esperamos, e três dias depois uma das psicólogas liga: “gostei do trabalho, mas queríamos mais opões para decidir”. Concordamos (inclusive eu, pela curiosidade de ver a “quinta elementa” falar comigo).
Fizemos mais duas opções e marcamos outra reunião. Vestimos as roupas elegantes para dar o toque executivo ao momento e novamente estavam apenas as quatro na reunião. Para a minha frustração. Apresentamos o job (eu um pouco desestimulado), elas gostaram e disseram que iriam falar com a “quinta elementa”. Eu passei a achar que esta mulher na verdade deveria ser uma espécie de guro ou mentora espiritual desencarnada que as quatro mantinham contato através de copos virados, espelhos ou por meio de transes mediúnicos.
Misteriosamente as quatro desistiram após esta reunião (talvez seguindo o conselho da entidade). Tentamos marcar novas reuniões e elas (as quatro) disseram que estavam avaliando as marcas e iriam retornar. Não insistimos mais e nem elas ligaram. Até hoje me arrependo de uma coisa apenas: de não ter investido na minha empreitada de descobrir o paradeiro da “quinta elementa”. Eu deveria fazer que nem Bruce Willes e lutar por ela até o fim. Quem sabe a chave da nossa conta não fosse a “quinta elementa?”.
* ler a postagem anterior com o título: A Primeira Quase Conta